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it's carol

Um blog sobre tudo. Sobre o que me apetecer. Acima de tudo, sobre o que sou.

14.Set.18

Reflexos de sonhos roubados

Fazia planos para tudo. Sempre fez. Organizava os brinquedos em filas, colocava em primeiro lugar os carros com que queria brincar, depois o papel e os lápis com que o iria pintar, e, por fim, a bola com que jogaria. Seguiu-se a entrada para a escola, os primeiros horários de verdade. Havia sempre alguém que lhe organizava os dias: horas para o pequeno-almoço, a roupa escolhida com detalhe, a saída de casa com a mochila devidamente preparada, os dias entre a sala de aula e o recreio, as saídas, os percursos de carro ou a pé, de acordo com quem o ia buscar, as idas ao futebol, os banhos no balneário partilhado e os jantares sempre prontos no seu regresso a casa. Era disto que mais se recordava agora que se observava ao espelho e procurava o menino que, em tempos, acreditara que a vida podia ser escrita numa agenda, cumpridora de prazos, detentora de horários e sem vontade própria. Acreditara nisso até perceber que, por estar escrito num papel ou metodicamente memorizado num cérebro demasiado ocupado, não se concretizava tal e qual era suposto. Esse poder da suposição e a sua consequente concretização duraram quase até ele deixar os brinquedos e passar a dedicar-se àquilo que, segundo lhe diziam, eram os seus sonhos.

Sorriu para o espelho como se aquela mudança de expressão o ajudasse a encontrar a criança das suas memórias. Estava ali, de facto. Quase meio século depois. Já não ia ao futebol, nem chegava a casa esfomeado e exausto, encontrando conforto numa taça quente de sopa. Foram os sonhos. Pelo simples ato de sonhar, havia nas pessoas uma relativa perda de capacidade de fazer planos. Dissera-o, uma única vez, num jantar de amigos. Todos discordaram, afirmando que os sonhos se concretizavam porque delineamos o caminho que terá de ser percorrido. Ele discordava. Nunca fizera um caminho sem fazer desvios. E os desvios são perigosos porque podem mostrar-nos novos percursos, novos destinos ou até novas rotas para os mesmos fins. Ele não aceitara a possibilidade de ver um sonho ser alterado com a possibilidade de um sonho novo. Isso seria uma substituição lamentável. E há caminhos longos, não há? Por isso, foi mais fácil traçar planos para uma na qual vida, sabia-o, não teria oportunidade de sonhar. Seria demasiado arriscado lançar-se no meio do oceano sem saber para onde velejar o barco. Percebia agora a diversão que isso poderia representar.

Fazia planos para tudo. Sempre fez. Todavia, nunca se permitira sonhar. Acreditava que eram atos incompatíveis. Escolhera não gostar de surpresas. Até compreender que não tinha valido o esforço. Ou não estaria há meia hora em frente a um espelho, a última coisa daquela casa que lhe faltava embalar e juntar ao resto da mobília. Faria diferente agora. Teria quebrado as regras. Depois da sopa, teria ignorado a vontade de dormir e correria para o jardim. Brincaria mais uma hora, ou duas, ou até adormecer na relva. Quem lhe dera ter percebido mais cedo que não lhe fora permitido sonhar. Fora-lhe roubado esse dom. Em vez disso, acreditara que sonhar não era possível quando o corpo se prende e nos prende a uma cadeira de rodas. Observou-se novamente, à espera de ver para além. Levaria aquele espelho para onde quer que fosse. Naquele reflexo, conseguia imaginar alguém que nunca jogara futebol, nem brincara com carrinhos, nem andava a pé, a fazê-lo. Poderia ter sonhado e planeado os seus sonhos, se tivesse reparado neles mais cedo, se se tivesse visto mais vezes. 

 

Fazia planos para tudo. Sempre fez. Quando, na verdade, não fora capaz de se debruçar sobre o grande plano da sua vida: ele próprio. Estava na altura de tornar aquele reflexo em algo real. Tal como, ouve ele dizer, acontece com os sonhos. E ele tinha planos para isso.

 

Carol

 

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