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it's carol

Um blog sobre tudo. Sobre o que me apetecer. Acima de tudo, sobre o que sou.

28.Mar.18

Os parapeitos e as almas lavadas

Abriu a janela depois de amarrotar a cortina ao dividi-la ao meio e empurrar o tecido para os dois lados. Havia momentos bons naquelas manhãs. O som do despertador relembrava-o do quão importante era saber começar o dia. Uma arte pouco praticada. Uma qualidade, quando bem aproveitada, e o maior defeito, quando há despertadores mandados à parede. Conseguira desviar o lençol, pousar os pés no chão frio e rugoso. Tinha de comprar um tapete. Ou talvez fosse boa ideia deixar de dormir descalço. Mas os pés adaptavam-se à temperatura. Até ele. Ali, no parapeito da janela a sentir o ar fresco de mais uma manhã. Aquela brisa lava-lhe a cara e obrigava-o a abrir os olhos. Não fosse a curta distância da cama de solteiro que comprara em segunda mão permitir que ele conhecesse aquele percurso de olhos fechados. As mãos secas e grandes encostaram-se às maçãs do rosto geladas e esfregaram-nas rapidamente até ele conseguir ver o final da rua dobrar para outra que conseguia imaginar, mas não conseguia ver. E estava acordado. 

Apoiou as mãos na pedra suja do parapeito, mas não se importou. Aquele seria o momento em que lavava a alma, depois teria tempo de lavar o corpo. Ainda bem que as manhãs podiam ser mágicas para alguns. Ainda bem que as ruas tinham um brilho especial logo depois do sol nascer. Tudo era silêncio visto daquele 3º andar. As fitas da porta do café da frente já se agitavam com a entrada dos primeiros clientes. A pequena mercearia já ostentava cestas com a fruta colorida e vistosa da época. Dois senhores carecas e um pouco curvados debruçavam-se sobre as páginas de um jornal desportivo. O jovem casal do rés-do-chão que lhe oferecera uma tarte de maçã na noite passada já passeava de mão dada até à entrada da padaria. Uma senhora que calçava uns sapatos que inevitavelmente aumentavam a sua altura acelerava o passo a custo, calçada fora atrás de dois pequenos seres que riam à gargalhada. Ouviu miar e distraiu-se. Ainda não tinha gatos. Precisava primeiro de garantir que conseguia ganhar o suficiente para se alimentar a si. Voltou a fazer-se silêncio. Ele debruçou-se para fora da janela e na varanda do andar de baixo um gato cinzento e branco esfregava-se nos azulejos do chão. Mostrava-se satisfeito, lançando-lhe um olhar provocador e depois, ignorando-o por completo, deitou-se enquanto observava a rua. Ele riu-se. Tinham as mesmas rotinas. Ele e um gato. Gostavam de manhãs. Daquelas manhãs a observar as vidas que amanheciam antes das deles ou que davam o mote para as deles começarem. O gato da vizinha devia estar habituado àquilo. Quem não se habituaria? Ele chegara na tarde anterior e já estava mais do que habituado.

Não tinha dormido mal numa miserável cama em segunda mão, mas quantas pessoas dormiam em camas que davam para acolher multidões e acordavam sem conseguir ver metade das histórias que ele via dali? Se o trabalho corresse bem, se ganhasse para se alimentar e pagar o aluguer do quarto, talvez arranjasse um gato. O barulho da janela do 4º andar distraiu-o. Debruçou-se e olhou para cima. Viu duas mãos pequenas com as unhas num vermelho cereja e alguém espreitou. Esvoaçaram cabelos compridos, observavam-no dois olhos curiosos e uma mão suja do parapeito acenou-lhe. Ele esboçou um leve sorriso e voltou a endireitar-se para olhar em frente. No mesmo gesto orgulhoso e imponente, mas honesto e amigável com que o gato da varanda lhe dera os bons dias. As manhãs eram sempre mais do que sono e má disposição. E havia manhãs pelas quais valia a pena sujar as mãos. 

 

Ele olhou para as suas. Talvez devesse lavar o parapeito antes de lavar a alma. 

 

Carol

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