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it's carol

Um blog sobre tudo. Sobre o que me apetecer. Acima de tudo, sobre o que sou.

16.Abr.18

Não censuro quem olha lá para fora

Estou a assistir a uma apresentação oral de História Contemporânea. Na verdade, quando estiverem a ler isto já estou fora desta sala onde viajamos no tempo. Apresentações orais são, por norma, sinónimo do sentimento quero-sair-daqui-não-quero-estar-aqui. Tanto para quem as faz como para quem assiste. Esta é sobre a História de Portugal, os tempos de repressão e censura de Salazar. O tema é abordado por 8 olhos rasgados que se escondem atrás de folhas impressas e sublinhadas com cores fluorescentes. A história deles pertence mais a Macau do que aqui, mas eles fazem o esforço. Até agora tirei poucos apontamentos. Prefiro vê-los aqui do fundo desta sala cheia de cabeças desinteressadas, porém um tanto curiosas para saber como se saem  geografias distantes quando estudam acontecimentos que moldaram o nosso mapa. Mas eles avançam. Nervosos, como quem pisa um território desconhecido contundo, nem por isso, menos preparado com antecedência. Leem a matéria num português arrastado, numa troca divertida entre os L's e os R's. Completam as frases com o melhor vocabulário que conseguem e esforçam-se para serem compreendidos. É isso que me cativa, mais do que a matéria em si. E não deixa de ser interessante observar o medo e, ao mesmo tempo, a diversão. Parecem realmente divertidos. Ou são apenas gargalhadas nervosas. Não importa. O tema é pesado e quem o conhece dos manuais de História da escola tem consciência disso. Para eles, talvez não passe disso, de História sem história.

Está cada um por si, cada um desliza para o "palco" quando chega a deixa sobre a qual deslizou um qualquer marcador. Os outros três mantêm-se afastados, encostados à janela. É aí que reparo que um deles espreita lá para fora, com a testa encostada ao vidro, como se não acontecesse nada cá dentro. Chega a sua vez. Faz a sua parte e regressa para perto da janela, concentrando-se no que está lá fora. Não sei o que vê ou no que pensa. Talvez no seu sitio, na sua casa. Talvez no final da aula. Ou talvez em nada. É mais isso que parece. Que olha apenas para a rua. Está a chover, reparo agora. Mas, lá fora, há liberdade para trocar as letras, para poder falar no dialeto que quer e sobre o que quer. Por enquanto, sabe de cor as datas e as políticas de um regime que foi implementado noutra língua, impedindo-a de dizer tanto.

Agora, ouvimos as apreciações do professor contudo, eu continuo a ver a imagem daqueles olhos rasgados debruçados sobre a janela enquanto se discutia aquilo que o Lápis Azul em tempos não permitiu discutir. Havia na sua expressão a coragem de querer ser livre num mapa que se alinhou de acordo com as repressões e as liberdades. Quem não quer? Quem o pode censurar por olhar lá para fora? Não é isso que fazemos sempre? Não é para lá que olhamos quando nos querem prender cá dentro? Não são as janelas um símbolo de liberdade em qualquer lugar do mundo?

Mesmo que para contemplar o nada. Mesmo que para procurar a forma correta de ler os erros que a ditadura cometeu. "Portugal é grande", ouvi eu, mais do que uma vez durante esta apresentação. Sim, somos um país que sabe orientar os olhares na procura de mais. E, sim, somos um país grande o suficiente para receber outras Histórias, dando novas coordenadas na construção de uma História com um futuro livre cheio de grandes histórias para contar. Que haja sempre uma janela para onde possamos olhar livremente. 

 

Lá fora ainda chove. Não seria disso que Salazar precisava? De apanhar uma grande molha para refrescar as ideias?

 

Carol

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