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it's carol

Um blog sobre tudo. Sobre o que me apetecer. Acima de tudo, sobre o que sou.

05.Out.18

É por isso que nos queremos tão iguais?

Acho que nunca tinha visto a água deste rio tão límpida. O sol acaricia-a e ela brilha como uma criança feliz depois de deixar os pais orgulhosos. Se me debruçar, também me consigo ver. Ainda não me habituei à minha nova imagem. Cortei o cabelo pelas orelhas. O formato está estranho, mas o que pode ser mais estranho do que aquela cor que tinha, a viajar entre o branco e o amarelo? Ao menos está novamente preto. Bem escuro. Lá no trabalho disseram-me que a minha aparência define melhor o meu estado de espírito do que a minha própria personalidade. Se calhar nem tenho uma. Talvez tenha aquela que os outros me dão. A senhora da limpeza sorriu-me e apontou para os meus pés. Lembras-te daqueles ténis que usava quando tinha 16 anos e achava que intelectualidade era o meu nome do meio? Comprei uns iguais na semana passada. São fluorescentes. Acho que me fazem parecer mais nova. Pelos vistos, a senhora da limpeza não achou. Disse que parecia que andava por cima duas lâmpadas e que "talvez por isso", como ela própria enfatizou, eu andasse sempre a correr de um lado para o outro. Não sei se entendi bem o que ela quis dizer com isso. Mais ninguém comentou a minha compra. Ainda assim, tenho evitado dar-lhe uso à frente de outras pessoas desde este episódio. O verniz das minhas unhas está a sair. Não poder roe-las é uma tentação. Tenho de as pintar novamente. Percebes agora quando digo que o meu aspeto diz mais de mim do que eu própria? 

Está uma única nuvem no céu. Mesmo por cima de mim. Faz-me lembrar um carro. Por falar em meios de transporte, a Rodadas está com pouco ar nos pneus e eu ainda não tive paciência para os encher. Aquela bicicleta faz-me falta nestes dias de calor. Vir a pé até aqui deixou-me a suar até de sítios que eu não sabia que ser possível respirar. Ontem choveu de manhã, mas hoje o tempo parece mais seco do que aquelas esponjas que passam anos sem ver água. Gostava de saber se sou só eu que estou a ver esta nuvem. Está mais deformada agora e não se parece tanto com um carro. Será que está mais alguém a observar-se no decurso deste rio? Pode parecer uma pergunta sem sentido, porém eu penso sobre isto.

Tu não pensas assim? Não achas que nos vemos todos da mesma perspetiva? A partir do mesmo rio? Será por isso que não somos capazes de ver que se vê de outros rios? Cá para mim, o problema está no facto de nos debruçarmos todos sobre as mesmas águas. É por isso que nos queremos tão iguais? Por desaguarmos todos na mesma foz?

 

Achas que devo ir trocar os ténis?

J.

 

Carol

 

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01.Out.18

Excesso de felicidade?

Há felicidade a mais. Em cada fotografia partilhada, em cada frase feita e reutilizada vezes sem conta. Por essas redes sociais sociais fora criou-se um novo conceito para a palavra "felicidade". Escondemo-nos atrás de um ecrã iluminado para seguirmos pessoas. Somos seguidores, pessoas transformadas em folhas de excel, cuja maior importância está nos números. Vivemos em função da tendência. Fico satisfeita por saber que tendemos a querer ser felizes. Essa não é a questão. A felicidade é algo individual, que mais ninguém pode sentir por nós. Não tem livro de instruções nem GPS que nos indique o caminho. É destino que não sabemos como chegar, percurso com atalhos surpreendentes. E, como muito do que surge nas bocas do mundo, está a ser consumida por uma banalidade que não lhe pertence. Existem dicas sobre como ser feliz, como atingir a felicidade. Não aceito isso. Não é assim tão simples. Essa "felicidade", de que todos falam agora, é nova. Aconselha-se, ensina-se e pratica-se. Compreendo que nos faça sentir melhor essa capacidade de conseguir classificar o nosso nível de bem-estar, como pontuamos um filme no IMDb ou um restaurante no TripAdvisor. Reconheço até uma tentativa de sermos mais uns para os outros. Mas existe neste novo conceito uma partilha diferente que começa precisamente no momento em que sentimos necessidade de partilhar porque corremos o risco de não sermos tão felizes se os outros não souberem que é assim que nos sentimos. Como se precisássemos da confirmação dos outros para percebermos que estamos bem, mesmo bem. Não é assim que funciona. Aliás, é na ausência de um funcionamento concreto que está a felicidade antiga. Uma felicidade que não atingimos, mas sim que nos atinge. Que também pode ser partilhada, mas apenas porque é resultado de uma partilha e não construida a pensar nessa finalidade. 

 

Sinceramente, gosto de ver pessoas felizes no ecrã do meu telemóvel. Não há nada de mal nessa felicidade. Até deixar de ser o que é só para caber numa fotografia ou numa descrição. E há algo a mais nesta coisa de querer ser feliz para mostrar como se consegue e como se faz. Algo que não chega nem perto daquilo que sentimos quando estamos tão bem que nem sequer nos lembramos de publicar, não concordam?

 

Carol

 

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