Lembro-me que, há pouco mais de um mês, tentava escolher um lugar para reunir os amigos e, juntos, apagarmos as 22 velas de um bolo comprado numa pastelaria na véspera. Lembro-me tão bem do momento em que sabia tão pouco que o tanto que se sucedeu ocupa agora memórias difusas. Os primeiros casos e o caos total. As aulas suspensas e a suspensão das restantes folhas do calendário. O ficar em casa até tudo passar e sairmos disto mais passados do que já eramos. Os telejornais como (...)
A expressão “acorda para a vida” não faz sentido nenhum para quem gosta de levar no bolso uma vida cheia de sonhos. Até compreendo que não só de sonhos se fazem as manhãs preguiçosas e as sestas batoteiras, mas parece-me que todas as noites mal dormidas se empanturram de sonhos por cumprir. E todos os que sonham, um dia também têm de acordar. Só que, primeiro, é preciso entregarmo-nos ao sono que nos leva aos sonhos. Não há mal nenhum em acordar na vida, em lançar um (...)
Uma folha em branco tem espaço para dois ou três mundos loucos como aquele em que vivemos. Ou mais. Mais mundos e mundos mais loucos. É por isso que, na lista de coisas que as pessoas mais gostam, em primeiro lugar deveriam constar as palavras. Gostamos de chocolate, de passeios ao pôr-do-sol, de longos dias de sol e de noites de inverno a ouvir a chuva lá fora. E gostamos sempre de música, até mesmo quando preferimos o silêncio. E esquecemo-nos sempre que também gostamos das (...)
Sentei-me na mesa do canto. Aquela em que mais ninguém se quer sentar porque a janela está estragada e, por isso, constantemente a abrir-se. As mães queixam-se das correntes de ar que constipam os filhos, mas os miúdos não querem saber e escapam-se-lhes num piscar de olhos lá para fora. O vidro estremece quando o grupo de crianças lhe acerta em cheio com uma bola. Cá dentro, as mesas abanam e as chávenas de café tilintam e os velhos nem se apercebem, porque a idade já lhes (...)
Onde é que já não estão as doze uvas passas [passadas, provavelmente!]. Por esta altura, já ninguém sequer se lembra das promessas com que brindou ao início do ano vinte vinte. E – entre os números das passas, dos desejos pedidos, dos sonhos por concretizar, dos anos que já passaram e dos que estão para chegar – o mês que se quer inteiro, com tudo e tanto, vai quase na medíocre metade de si. Afinal, nem nós nos descobrimos diferentes, nem 2020 é um ano assim tão (...)
O fim do ano está aí. Que nem aquele embrulho esquecido debaixo da árvore de natal, rasgado à pressa, na ansiedade de saber se o melhor ficou para o fim. Uma contagem decrescente acelerada que termina com milhares de olhos postos num céu infantil, que brinca com as cores e com os brilhos, e nos mostra um espetáculo exagerado de felicidade para receber o novo ano. O mundo, desencontrado na hora em que vê ser arrancada a última página do calendário e tantas vezes perdido por querer (...)