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it's carol

Um blog sobre tudo. Sobre o que me apetecer. Acima de tudo, sobre o que sou.

18.Jul.17

Não sabemos nada. Essa é a verdade.

Correu para a janela. Abriu-a devagar para que ninguém dentro de casa pudesse ouvi-lo sair. Saltou e o chão pareceu-lhe mais duro e desconfortável do que costuma ser durante os dias longos e atarefados. Corria uma brisa, não tão depressa como ele tinha corrido para a janela, mas com a velocidade suficiente para o fazer agarrar-se aos braços e proteger-se do frio das 5h da manhã. Apressou o passo e subiu para cima do muro. Ainda estava escuro, mas seria por pouco tempo. Aqueceu as mãos com o bafo quente que tinha na boca e voltou a esfregá-las nos braços. A luz começou a aparecer. Devagar. O sol erguia-se bem longe. Talvez num lugar melhor do que aquele, porque é preciso ter muita força de vontade para nascer diariamente e viver num lugar onde as pessoas, que tanto sabem sobre tudo, se escondem numa das melhores horas do dia. Ele ali estava. A olhar para esse lugar longe e, possivelmente, melhor. As cores surgiam misturadas entre o amarelo, o laranja, o rosa e o azul quase branco do céu. Era possível que nunca lhe tivessem ensinado o nome de todas as cores porque talvez nunca ninguém olhara para aquela pintura. Porque todos os que se preocuparam em ensinar-lhe as cores, as letras, os números e outras trivialidades que dizem ser indispensáveis para a vida, nunca repararam que o mais importante é muitas vezes aquilo que não está estabelecido como importante na lista de coisas-importantes-e-indispensáveis. Sabem lá eles o que é isso. Sabem lá eles o que é ver o sol nascer e tentar dar nome às cores do céu e às cores que o coração sente. Tudo fica mais quente. Os braços estão agora sobre as pernas dobradas. Até a formiga que se passeia na sua perna, fazendo-lhe cócegas, parece apreciar mais aquele quadro do que eles, os outros. Porque os outros sabem tudo. Mas não sabem nada. E ele, por causa dos outros, também sabe pouco. Não sabe onde nasce o sol todos os dias. Esse lugar melhor onde tem mais valor o que se vive do que o que se sabe. Porque se ele soubesse de onde vem o sol, de onde são libertadas todas aquelas cores sem nome, era para lá que corria. Sem dizer a ninguém. E, mesmo aí, podia continuar a viver sem saber o nome das cores. Porque é melhor viver sem querer saber tudo. É melhor dar espaço à ignorância de ver um nascer do sol sem saber descrever as cores que ele pinta no céu do que saber a que distância estamos do sol sem nunca o termos visto nascer. 

 

Ele voltou para casa. A saber mais do que todos os outros. Que se escondem numa das melhores horas do dia. 

 

Carol

 

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